Avante, Siba!

Faz tanto tempo que Siba é relevante que fica complicado até comentar a importância dele pra música “atual”. Ele apareceu pro Brasil nos idos dos anos 90, no boom do movimento manguebeat, como vocalista e rabequista do Mestre Ambrósio, uma das bandas mais interessantes dessa leva. E, logo no primeiro mês do ano em que sua antiga banda faria 20 anos, Siba chega chutando a porta com um disco novo muito, muito bom.

Avante abre a lista de lançamentos de 2012 em grande estilo. E, pra botar o projeto em prática, Siba juntou uma formação peculiar por si só: duas guitarras (ele próprio e Fernando Catatau), uma bateria (Samuca Fraga), uma tuba fazendo as vezes de contrabaixo (Léo Gervazio) e também teclados/vibrafone (Antônio Loureiro). Tudo isso produzido pelo polivalente Fernando Catatau, que deu um toque de modernidade ainda mais latente ao album (e um inevitável “quê” de Cidadão Instigado).

Siba encostou a rabeca e reatou laços com a guitarra, seu instrumento de origem no Mestre Ambrósio, num louvável exercício de renascimento artístico. (Uma grata surpresa, aliás – o cara se revelou um guitarrista muito interessante, com uma técnica e um fraseado muito particulares). O resultado é um Siba bem mais rock’n'roll do que nos últimos projetos que ele tocou (os dois discos com a Fuloresta e o album em dupla com o violeiro Roberto Corrêa) mas sem perder a veia brasileira que lhe é tão característica.

Da primeira faixa (“Preparando o Salto”) até o fim da audição de Avante (com “Bravura e Brilho”), o que ouvimos é o bom e velho Siba, poeta de mão cheia – só que mais elétrico e com fôlego renovado.

Mas acho que ele pode explicar melhor do que eu:

2012 mal começou e já temos um forte candidato a melhor disco do ano. Vale a pena dar uma passada no site novo do cara também, tá bem bonito e com bastante conteúdo.

Pra pegar o disco, é aquele esquema: clica na capinha dele ali em cima.

Os 5 melhores discos nacionais de 2011

Acho que todo blog de música/cultura que se preze deve fazer uma lista de melhores do ano, né? Eu acabei me enrolando um bocado e perdendo um pouco o timing, mas estamos em janeiro e acho que vale o esforço. Tá aí meu humilde Top 5 de discos lançados em 2011 por músicos desse Brasilzão de meu deus. Se ainda não ouviu algum deles, aproveita que todos tão disponíveis pra download pelos próprios artistas. E, pra você que é preguiçoso, eu fiz o serviço completo: é só clicar na capa do álbum.

Lá vai.

5) Criolo – Nó Na Orelha

Como toda boa lista de discos nacionais de 2011 que se preze, esse disco não podia faltar. Depois de umas duas décadas de carreira no rap, Criolo (que antes assinava como Criolo Doido) surpreendeu meio mundo com esse Nó Na Orelha, lançamento de inéditas que mostra que o cara manja muito de compor e cantar melodias.
Entre a abertura, com “Bogotá” (um afrobeat suingadíssimo), e a última faixa (“Linha de Frente”, um sambinha maroto), ele passeia por vários gêneros sem constrangimento, e se revela um cantor de mão (garganta?) cheia. Além disso, Criolo é um letrista ligeiro e pra lá de articulado – e tem uma ironia implícita que é coisa fina.
A produção é do Daniel Ganjaman e do Marcelo Cabral e, olha, tiro o chapéu pros dois também. Arranjos e timbres de um bom gosto louvável.

4) Amabis – Memórias Luso/Africanas


Depois de uma carreira consolidada como compositor de trilhas sonoras e produtor, Gui Amabis se arriscou finalmente no lançamento de um disco solo autoral. Memórias Luso/Africanas teve como inspiração inicial, segundo o próprio Amabis, as histórias que ele ouvia de sua avó.

A partir daí, o compositor foi selecionando o time que escolheria para ajudá-lo nas gravações. Tulipa interpreta as duas canções mais pra cima do disco, “Sal e Amor” e “Ao Mar”. Criolo empresta suas interpretações mais inspiradas pra “Orquídea Ruiva” e “Para Mulatu”. O próprio Amabis canta a bonita “Dois Inimigos”. Também tem Lucas Santtana (“O Deus Que Devasta Mas Também Cura”) e, claro, a esposa de Amabis, Céu, em duas canções (“Swell” e “Doce Demora”). Mas o momento mais bonito do disco fica por conta do timbre grave e da intepretação cheia de densidade de Tiganá em “Imigrantes”.

Amabis já declarou que não visualiza, para ele, uma carreira enquanto performer. Resta torcer pra que, ao menos, ele siga lançando discos como compositor e juntando sempre uma gangue como essa.

3) Emicida – Doozicabraba e a Revolução Silenciosa

Emicida é um dos caras mais incansáveis dessa nova geração da música brasileira. Quatro lançamentos em três anos, fez show no Brasil inteiro (e até em Nova York), virou VJ da MTV, fundou seu próprio selo… Esse ritmo frenético, essa dispersão, pode levantar dúvidas sobre a qualidade do que está por vir, certo?

Errado. Muito errado.
Doozicabraba e a Revolução Silenciosa é a prova da maturidade de Emicida. Cada vez mais focado, ele se juntou à experiente dupla de produtores americanos K-Salaam & Beatnick (que já trabalharam com grandes como 50 Cent e Mos Def) e fechou um EPzinho rápido e rasteiro. Sagaz como sempre, Emicida ainda convidou amigos no nível de MV Bill e Dom Pixote (“Pequenas Empresas”), Fabiana Cozza (“Cacariacô”) e Rael da Rima, que inverte o jogo e protagoniza em “Num É Só Ver” (praticamente uma música perdida do Pentágono).
E ainda é de graça. Ou mais ou menos de graça: você troca o download por uma moeda barateza – um tweet seu. Baixa aí, porque eu garanto que você sai ganhando.

2) China – Moto Contínuo

Esse já tem uma história considerável no rock nacional. Nascido Flávio Augusto, China foi o frontman do extinto Sheik Tosado, e, depois do término da banda, vem trabalhando firme para consolidar seu nome na música brasileira.
Depois dos lançamentos de Um Só (EP – 2004) e Simulacro (2007), China lançou esse Moto Contínuo, um disco que torna visível a incontestável evolução dele enquanto compositor. O rock’n’roll ainda está lá, mas agora ele vem mais explicitamente acompanhado de outras influências – valsa, brega, música eletrônica, pra ficar em algumas.
Produzido e arranjado pelo próprio China, o disco traz ainda as vozes femininas de Pitty (na fofíssima “Overlock”), Tiê (“Terminei Indo”) e Ylana Queiroga (“Mais Um Sucesso Pra Ninguém” – essa, a melhor do disco). Moto Contínuo traz ainda, como banda de apoio, o Mombojó quase inteiro.

Um disco classe-média altíssima, como diria ele mesmo.

1) Wado – Samba 808

E a primeira colocação vai pra um dos caras mais subestimados da música nacional. Wado vem enfileirando grandes discos desde 2001 (ainda como Wado e o Realismo Fantástico) e esse Samba 808 não poderia ser diferente.
O album é demais, em todos os sentidos. Desde a parte gráfica até o line-up de convidados ilustres, tudo foi feito com muito capricho. Pra se ter uma ideia da qualidade do rapaz, basta dar uma olhada no nível das amizades e parcerias: Andre Abujamra, Marcelo Camelo, Curumin, Zeca Baleiro, Chico César, entre outros, abrilhantam ainda mais esse discaço.
Suíngue (“Os Surdos das Escolas de Samba”), rock misturado com afoxé (“Jornada”) e um quase samba-funk (“Esqueleto”), são alguns dos gêneros que você encontra em Samba 808, sempre acompanhados da inventividade a que Wado já acostumou todo mundo que conhece o trabalho dele.
Pra completar, Samba 808 traz ainda um “leia-me”, escrito pelo Wado, explicando a decisão de lançar o disco apenas na internet, sem intermédio de selos ou gravadoras. “Este disco é um presente pra você”, nas palavras do próprio. Vai buscar logo esse presente!

O mais triste de fazer listas é que você nunca consegue colocar tudo que acha que merecia. Esse ano teve também o Um Labirinto em Cada Pé, do xará Rômulo Fróes, teve o Metá Metá, do Kiko Dinucci com a Juçara Marçal, teve o Longe de Onde da Karina Buhr, o Sou Suspeita, Estou Sujeita, Não Sou Santa, primeiro da Anelis…

Enfim. Você acha todos esses e muitos mais por aí pela internet e quase todos são gratuitos. Vai atrás!

Feliz 2012 pra todos!

Fede, mas nem tanto

O pensamento natural que vem à cabeça quando alguém te conta que o Metallica vai gravar um disco com o Lou Reed é “isso vai feder”. Bom, talvez não com essas palavras, mas se você realmente criou expectativas quanto a isso, bom, o errado foi você. Pois bem, “Lulu” foi lançado e, no fim das contas, nem fedeu da forma que eu esperava.

 

até a capa é feia

 

A verdade é que o Metallica não é a banda que eu julgaria ser a ideal pra gravar, junto com o cara doidão do Velvet Underground, um álbum conceitual sobre uma bailarina alemã que foi abusada quando jovem (se é que existe uma banda ideal pra isso). E, mesmo eu sendo um fã do Metallica, devo admitir que eles nunca foram artisticamente ousados, nem inovadores, nem nada. Eles não foram a primeira banda de thrash metal, nem foram a primeira banda de metal a flertar com o pop, e muito menos os primeiros a gravar um disco intencionalmente tosco – mas conseguiram se destacar de todo o resto quando fizeram cada uma dessas coisas. O grande mérito do Metallica, pra mim, sempre foi fazer melhor que os outros, não diferente. E aí faltou cancha em experimentação, porque o mais criativo que James e seus amigos conseguiram fazer foi em “Pumping Blood”, num trecho em que o Lars Ulrich manda uns trechos de viradas, repetidamente, enquanto o resto da banda fica fazendo barulhinho em seus instrumentos. E por “barulhinho” entenda tocar notas aleatórias, passar a palheta nas cordas, usar alavanca, etc. Até nisso faltou ousadia. Podiam pelo menos usar uns efeitos diferentes, né James e Kirk? Quanto ao Trujillo, bom, digamos apenas que o baixo no Metallica não faz diferença desde que o Cliff morreu.

qria ta ai pra grava esse disco com vcs amigos kkkkk #NOT

Dia desses comentei no twitter sobre o quão insosso é “Lulu” e o quanto ninguém se importava, e um amigo (o Ciro Hamen, do Acento Negativo) me rebateu com essa reportagem do Globo que dizia que alguns fãs do Metallica ameaçaram o tio Lou de morte, e me disse que ele mesmo achava o disco horroroso. Essas duas reações são precisamente o que eu queria dizer com a baixa quantidade de fedor: quem ficou realmente puto com o negócio todo foram os fãs hardcore do Metallica (e talvez os do Lou Reed – confesso que não conheço nenhum), e o resto todo achou o disco ruim mas nada que realmente mereça ser mencionado. Quem vai falar sobre “Lulu” é o cara que até hoje não superou Load/Reload/St. Anger (tem até quem coloque o Black Album nesse bolo!) e achou que o Death Magnetic era a salvação do metal. Ele, e talvez o cara que não gostou mas, né? Nem esperava nada mesmo.

Minha análise é a de que tanto Metallica quanto Lou Reed podiam ter passado sem essa. Simplesmente não valeu a pena. “Lulu” até tem bons momentos (pouquíssimos, diga-se; talvez “Cheat on Me” e “The View” mereçam uma tentativa com alguma boa vontade), mas tem um fator replay baixíssimo. Melhor deixar cair no purgatório dos discos inúteis.

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